segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ONDE JÁ SE VIU ESTE ABSURDO?

ONDE JÁ SE VIU ESTE ABSURDO?


ONDE JÁ SE VIU ESTE ABSURDO?


Valci Barreto
Advogado, cicloativista baiano
Bikebook.blogspot.com
Muraldebugarin.com



A pergunta do título é feita pelo arquiteto e urbanista, LOURENÇO MUELLER, em artigo de sua autoria, publicado no jornal à tarde de 06.01.2011, carregado de ironias, censurando a implantação de quebra-molas na ciclovia da orla. Para mim, e para quem pedala em nossa Capital, é fácil imaginar que o articulista não pedala em nossa orla porque, se o fizesse , não condenaria a implantação daqueles equipamentos.

Pertencemos a um grupo de cicloativistas baianos que, em conversas; ações; passeios; encontros, muito discutimos e reivindicamos ações governamentais   em favor das bicicletas nas ruas e ,  sobretudo, usamos bicicletas como lazer, turismo, esporte e meio de transporte.

Estamos, assim, em condições de falar sobre o tema , incluído nele a implantação de quebra-mola na ciclovia.

Pessoalmente , poderia citar uma série de casos para ilustrar a defesa que aqui faço. Meus companheiros de pedal citariam centenas. Ilustro com um  apenas e o leitor poderá  multiplicá-lo , à vontade , para chegar ao elevado número de ocorrências iguais ou assemelhadas. Vínhamos eu, um casal de arquitetos paulistas, que de bicicleta visitava Salvador;  o Procurador do Estado e professor de Direito, Deraldo Dias; sua esposa, professora de Literatura , Tereza Junqueira e mais alguns amigos ,  pedalando pela ciclovia da orla. Em sentido contrário vinha um rapaz pedalando em alta velocidade , sem o mínimo de cuidado com quem  estava ao seu lado ou em sua frente, olhando apenas para o chão como se nenhum obstáculo existisse por onde circulava. Adivinhando  o que iria acontecer, todos nós paramos instantaneamente, por  segundos, suficientes para nos protegermos da inevitável batida, que só não resultou em feridas maiores porque o  ciclista era jovem, forte, dotado de uma certa habilidade para se proteger da  queda que o levou ao chão após bater em uma das nossas bicicletas. Mas não escapou de alguns arranhões, da danificação da sua nem de uma das nossas bicicletas. Estou contando apenas um , entre centenas de acidentes que ocorrem naquela ciclovia, causados exclusivamente pela irresponsabiliade de alguns ciclistas.

Uma boa parte da nossa população é mal educada no transito quando em  carro, moto, bicicleta e até mesmo a pé. A ciclovia da orla é passagem de pedestres entre a praia e o asfalto. Os pedestres circulam pela ciclovia, e os ciclistas ivandem os espaços destinados aos pedestres. Há situações de ciclistas que param para consertarem  suas bicicletas em cima da pista de rolamento , mesmo havendo espaço suficiente fora dela. Saindo da orla, e vindo para a ciclovia da Centenário, constata-se que a pista destinada às bicicletas , apesar de terem ostensivas sinalizações indicativas do espaço destinado exclusivamente para bicicletas, é ele  muito mais usado como pista para cooper ; treinamento de corridas a pé; passagem de carrinhos de compra e de pedestres do que de bicicletas. Os ciclistas, literalmente foram expulsos do que seria um espaço para eles.  E  se alguem, trafegando em sua bicicleta pedir a um daqueles pedestres para ocuparem os espaços a eles destinados, na melhor das hipóteses receberão uma “cara feia”, um olhar de reprovação. Como são usadas por pessoas que fazem educação física, muitos deles “malhados”, melhor  pedalar em outro local, mesmo correndo  o risco de atropelo pelos carros.

Sem nenhuma dúvida, o dr. Mueller anda de carro e testemunha, diariamente, as mazelas do nosso transito;  a brutalidade, falta de respeito e de educação de um bom numero dos nossos  motoristas . Para os motoristas de carros, temos em nossas pistas: sinal de espaço exclusivo para ônibus e taxis; sinalização de redução de velocidade, faixas de pedestres , semáforos. O mais comum é o motorista desobedecer a todos eles, exceto quando, além do semáforo e ameaça de multa, há um soldado apontando-lhe uma metralhadora. Como , tanto no carro como nas bicicletas  estes bens possuem, para muitos, mais valor do que a vida alheia, eles preferem atropelar alguem do que vê-los arranhados. Por isto, atentam mais para quebra-molas do que para avisos , placas que avisam do limite da velocidade, ou que proíbem estacionamentos em passeios , por exemplo. Lamentavelmente, é assim que é. Buzinadas em qualquer local, hora e dia, mesmo em portas de escolas e hospitais, são as cenas mais corriqueiras.

Na ciclovia não é diferente este comportamento agressivo, descompromissado com o direito , com o espaço, com a vida dos outros.

Já pedalamos em nossa Capital  com vários ciclistas de outras regiões do país, inclusive do Sul, e até de outros países.

Alguns deles nos perguntam, realmente, o motivo dos quebra-  molas. Após a explicação dos motivos todos entendem.

Não creio que os sulistas rirão  dos  quebra -molas das ciclovias. Porém , é melhor suportarmos a gozação dos nossos amigos do Sul do que termos  que  transportarmos , para hospitais, ciclistas, pedestres,  atropelados , vitmados pelos irresponsaveis  que teimam em fazer da ciclovia muito mais um espaço para corridas; acrobacias do que local de lazer, esporte e transporte.

Se o senhor andar de bicicleta pela orla de Salvador, não tenho dúvida de que não irá se preocupar com possíveis gozações dos nossos irmãos do Sul que certamente  entenderão  o  motivo  daqueles  equipamentos na ciclovia.

 Muitos não se educam em casa, na escola, nem com multa, quando podem pagá-las.

Para muitos, a vida vale menos do que seu carro. Para este caso, o quebra mola funciona melhor do que ameaça de multa, semáforo, ou avisos . Quando em bicicleta, este tipo de gente não se comporta diferente.

Em nosso meio ciclístico baiano, os irresponsáveis no pedal  são denominados de “papucos”; seu número é grande, crescente e têm a orla como local preferido para acrobacias, corridas  e descarga da sua ignorância e falta de respeito às regras de segurança e de bom viver em comunidade.

Aos que pedalam com educação eles não incomodam em nada ; muito menos nos  incomodarão possíveis inofensivas gozações do Sul que, se vierem, serão por nós perdoadas. A ignorância é sempre digna de perdão, mesmo quando em forma de gozação, venha de onde vier.

Por isto, meu caro dr. Mueller, por favor deixe lá nossos “quebra molas”. Eles não nos livrarão dos assaltos, roupos que tanto ali também acontecm. Mas de muitos acidentes, com certeza nos livrarão.


 

Um comentário:

Itana Mangieri disse...

Valci !
Parabéns pela coerente defesa e incentivo à qualquer ação pública em prol da melhoria do ciclismo em nossa Salvador.
Leio vários artigos dominicais do nosso colega colunista Lourenço Muller, e cheguei à parabenizá-lo por outros anteriores, porém este tbm me chocou. Talvez pelo preconceito e preocupação com críticas referentes à diferenças culturais e regionais.
No sul e em qualquer outro canto do país também há ciclovias, mas tanto aqui como acolá, muitos preferem trancar-se em seus carros e perder tempo e vida parados no trânsito sem um ângulo mais detalhado, vagaroso e prazeiroso da locomoção.
Diversidades ... a importância e distorção sobre conforto e segurança !
Vamos pedalar e relaxar !
Bjos