sábado, 6 de setembro de 2008

JOAO GILBERTO, MEU IDOLO.

VALCI BARRETO,

O texto abaixo, que vai para minha coleção das coisas de Joãozinho, foi publicado no Jornal à Tarde. Parabens a KATHERINE FUNKE. Poucas pessoas escreveram tão bem a respeito de um Show de João. Ficarei atento ao nome desta moça. Certamentenão não é somente jornalista.É muito mais. Sabe ser um pouco João Gilberto. "Captou" o que é um show do criador da bossa nova. O texto me pôs, literalmente, dentro do Teatro Castro Alves. E de uma forma especial: sem pagar ingresso. Parabéns ao Jornal e à Jornalista.

Os motivos porque não fui ver o João estão em texto que publiquei neste bikebook.com.br

Celular é crime em qualaquer ambiente de boa música. Tosse pode, porque nem sempre se pode conter. Maduro, joão entende a tosse; E parece, entendeu até o celular. Fazer o que com esta gente, heim João?

Eu, claro queria ter ido. Não podendo, vou ouvi-lo, agora:

"Que menina é aquele que entrou na roda agora..
..
eu quero falar com ela e ninguem sabe onde ela mora...

"Ah incencatez...que voce fez, coração mais sem cuidado....
valci barreto.

..

Aos pes da santa cruz
voce se ajoelhou
e
em nome de Jesus, um grande amor voce jurou..
...
Etã joãozinho bom danado!

06/09/2008 às 15:18 | ATUALIZADA às 16:03
João Gilberto é paciente diante de público exaltado no TCA


Katherine Funke

Em uma noite de lua crescente e céu limpo (5/9), João Gilberto, 77, fez seu último show da turnê do projeto Itaúbrasil, no Teatro Castro Alves.

Se foi o melhor ou o pior, do ponto de vista técnico, quem saberá? Mas foi o único na Bahia. E "a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem", como ele mesmo cantou, na primeira música, "Você já foi à Bahia?", em homenagem ao autor, Dorival Caymmi.

João reverenciou Caymmi do início ao fim. Especialmente em levar tudo numa boa, contando histórias, dialogando com o público, com a maior paciência. O espírito do compositor com quem João Gilberto passou longas madrugadas trocando palavras, batidinhas em código morse e silêncios por telefone pairou no palco por meio da voz sussurrada, às vezes desafinada e falha, do amigo de Juazeiro.

Mas onde estava o silêncio necessário para ouvir Caymmi em João Gilberto? Se todos tivessem pelo menos escutado o conselho do narrador da propaganda da operadora de celular que abriu o espetáculo, às 22h05: "Use o celular a seu favor. Desacelere".

E depois da propaganda da Odebrechet e um pedacinho de uma canção de Madonna (a outra estrela vip do momento, com ingressos caros e fãs sofredores em filas), a organização do teatro avisa para desligarmos os celulares, frisando que esse "inconveniente" deveria ser evitado especialmente naquele espetáculo. Todos riram. Mas o recado não significou nada para algumas pessoas. Celulares incomodaram o artista e o resto da platéia até o fim.

Às 22h08, eis que surge João Gilberto. Vem devagarinho da lateral, violão em punho. Cumprimenta o público com três reverências de cabeça, ainda em pé. Então senta, bota a mão direita sobre a perna direita e, ainda sob aplausos, começa a se desculpar imediatamente pelo atraso. Mais aplausos, sob os quais ele começa a tocar uns acordes - mas interrompe tudo ainda no começo, para reclamar do microfone.

"Desculpem, mas eu pedi para não ser esse microfone, porque esse tem um negócio assim, desnecessário", reclama, enfatizando bem o "eu pedi", e mostrando que o seu violão poderia bater no aparelho de captação.

Se o público não conseguiu silenciar durante o espetáculo, pelo menos naqueles instantes iniciais, às 22h10, a tensão provocada pelo microfone errado suspendeu respirações, retesou músculos, esticou pescoços, enrugou testas. E agora? Ufa. Um técnico de som vai lá, mexe no microfone. Ah. Agora sim. João toca "Você já foi à Bahia?", de Caymmi.

Atrás dele, uma tela azul, e ao seu redor, uma luz violeta - letargia e lisergia juntas. "Eu vim aqui cantar, mas qual é o baiano que não sabe cantar? Não tem nada de mais...", diz João, em tom de modéstia, após os aplausos. E conta uma história de Caymmi: que, em um show, alguém o avisou do horário do ensaio, e ele respondeu "não, não, eu já vim ensaiado".

Então, repetiu a música, agora emulando o amigo falecido no mês passado. Com voz embargada, cantou e tocou o violão diferente da primeira vez, agora alternando baixos e acordes cheios e com a voz mais densa e grave.

"Pronto!", sussurrou, ao ressoar do último acorde. Talvez tenha sido a única finalização totalmente audível do show, com o público ainda tenso e quieto por causa do problema do microfone do violão.

Mas o próprio João Gilberto se encarregou de relaxar a platéia, soltando em seguida: "Olha, eu canto por esse mundo todo, mas a Bahia é diferente". Pausa. "Eu fico até nervoso". Risadas. O artista tem as mãos apoiadas nos joelhos, postura ereta, respiração imperceptível. A iluminação branca parece querer criar a impressão de que João Gilberto é Deus, ou Buda, ou um anjo caído do céu, enviado por Caymmi. Sob as luzes, ele faz algum silêncio após a confissão de nervosismo. A platéia ovaciona. "Uhú. Uhú!", berram os mais empolgados.

Profissional experiente, João não espera outra oportunidade para a segunda música: "Ela tem um 13 de ouro", de Marino Pinto e Herivelto Martins. Nas primeiras filas estão seus amigos e familares. Tem as irmãs Dadainha e Vivinha, a filhinha mais nova e outros parentes e amigos.

A terceira do repertório, "Chove lá fora" (Tito Madi), surge em andamento ainda mais lento e arrastado. João fala sobre a emoção de reencontrar amigos e familiares da Bahia. Fala de Edson Diniz e da esposa Maria Eugênia. "Ela é psiquiatra... Aliás, eu vou até endireitar minha cabeça...", diz ele, parando de falar e consertando a postura. É ovacionado.

Antes da quarta música, "Rosa Morena" (Dorival Caymmi), reafina o violão dizendo baixinho: "Aderbal Duarte... escândalo" - uma referência ao maestro de Salvador que estuda as características técnicas de sua obra há décadas. E então começou a balançar as perninhas, sambando a seu modo entre as alternâncias de acordes de "Rosa Morena".

COMO É?
E aqui começa uma odisséia ininterrupta de celulares e tosses. Às 22h29, um celular toca alto. Pouco depois, outro. O homem ao meu lado se ajeita na poltrona, irritado. João reclama sem falar deles diretamente: "Olha, não é coisa de ventinho não..." , e relembra a história do ventinho direto na cabeça que o incomodou no Carnegie Hall, em Nova York, no dia 22 de junho. "É. Aqui pelo menos não tem...".

E então fala do primo. O primo de Salvador, o que canta no banheiro: Yulo. "Sempre viajamos juntos, ele me ajuda demais. Eu vou cantar essa pra ele". Vem a malemolente "Morena Boca de Ouro" (Ary Barroso). E em seguida pede mais altura no volume do violão. "Não, porque o som aí é um e aqui é outro. Quer dizer, é o mesmo, mas..."

Celulares continuam a tocar. Justo em "Meditação" (Tom Jobim/ Newton Mendonça), a platéia tem acessos coletivos de tosse em série, como se fossem todos tuberculosos. Ao fim da música, ele se mostra incomodado, mas fala sorrindo: "Cantei um verso que não era, porque foi escutar uma tosse..." . Palmas. E o público aproveita a brecha para pedir: "Aumenta o som!" Dois ou três homens, sentados mais ao fundo, fazem o pedido.

João provoca: "Como é?". Ninguém diz nada. Ele pede: "Como é? Fale...". E surgem novos berros de "aumenta o som!".

O artista responde: "O som é lá no controle. O volume não é assim não. Senão não existiria a trompa - fó fó fó. A orquestra faz tchá tchá tchá [ele usa os dois braços para simular um maestro de gestos intensos] enquanto a trompa está lá [se encolhe um pouco, do lado esquerdo e simula o instrumento de sopro com as mãos], fazendo: fó fó fó...".

João faz uma pausa e olha para o chão, em pose de gênio incompreendido, como se dissesse: "entenderam?". Volta no mesmo instante ao violão, mas antes da próxima canção ainda repete para si mesmo, baixinho, incrédulo: "Aumenta o som...".

"Retrato em branco e preto" (Tom Jobim e Chico Buarque) é cantada em sussurros, repetida com acordes minimalistas e compassos cheios de silêncios, como que para provocar. Terminando, ele diz: "É. Acho que fiquei um pouquinho resfriado". Conta uma história (que eu - confesso - não entendi muito bem), e promete ao anti-fã do fundão: "Desculpe, amigo. Eu vou treinar cantar bem alto!".

AO FIM
O restante do show seguiu no mesmo clima: João simpático, reverente à Caymmi e à Bahia e paciente com o público acelerado, atento e ruidoso. Mas o filho de dona Patu reduz a contação de histórias. E manda ver o repertório.

Às 22h51, reclama discretamente de um "ventinho" e, pela temperatura ambiente, parece que o ar condicionado foi desligado. Celulares e tosses continuaram a produzir decibéis audíveis, assim como barulho de chaves, zíperes, diálogos e sorrisos. Mas havia quem policiasse o vizinho e soltasse uma cara feia aqui ou ali. Duas mulheres e um casal saem para tomar um ar. Dizem estar passando mal pelo calor.

Meia-noite, um relógio desperta: bi-bip, bi-bip, bi-bip, bi-bip, bi-bip, e ninguém desliga, mas João segue cantando. Fim do show oficial.

Mas pouco depois, 00h05, ele volta ao palco e, antes do bis, começa a dizer algo como: "Desculpa, mas hoje eu não tô muito bom..." , mas o público interrompe sua história pedindo músicas, berrando títulos e mais títulos. Os mais fãs desceram para perto do palco e agora há muito mais barulho de flashes, aparelhos eletrônicos e diálogos.

A primeira do bis é "Copacabana". O público pede mais, e ele promete: "Eu vou cantar tudo!". Toca "Lígia" (Tom Jobim / Chico Buarque). Fãs comentam: "Lindo!". E emenda "Isaura", pedida por um fã no início do show. Ao fim da música, João fica imóvel, a escutar a ressonância dos últimos acordes - som não totalmente puro, posto que interrompido por dezenas de flashes barulhentos e ruídos de celulares.

Então João reclama mais um pouco, sem perder o humor: "Despertador, celular, sinos... não vou falar mais nada... " E fala, mesmo assim, de um alto-falante no Campo Grande que o incomodou. Mas alguém grita "Coqueiro velho", outro pede "Acabou Chorare", dos Novos Baianos.

João atende ao primeiro pedido. Emenda a penúltima: "A noite é bela" (Dorival Caymmi/Alcir Pires Vermelho), repetindo um pedaço, emulando Caymmi de novo. A última é "Garota de Ipanema", que o público acompanha em côro. É o fim. São 00h26, João levanta, cumprimenta o público com a cabeça. E some pela direita do palco. Devagarinho. Sem olhar para trás.

Repórter e ilustrador assistiram ao show a convite da produção do evento.

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06/09/2008 às 14:48 | ATUALIZADA às 15:04
Show de João em Salvador: Dadainha viu tudo de olhos fechados


Katherine Funke
Fernando Vivas
Na foto, Dadainha (esq) e Vivinha, irmãs do músico

A irmã mais velha de João, Dadainha, viu tudo de olhos fechados. Poderia ser poesia pura, ou talvez alta atenção auditiva em homenagem ao irmão, já que foi "internado" na casa dela que ele inventou seu jeito de tocar e cantar, há poucos meses mais de 50 anos.

Mas, na verdade, foi porque ela fez recentemente uma cirurgia de catarata. "Estavam ardendo muito", ela vai repetindo, com a mãos rapidamente na direção dos olhos, logo no fim do show, para todos que a cumprimentam ao pé do palco.

São meia noite e meia, mas a octagenária Maria, que vive em Vitória do Espírito Santo, está alegre e desperta. E senhora de si mesma e de suas palavras. Sorrindo muito, diz que gostou muito do show, embora não tenha visto nada por causa da cirurgia, e devolve a pergunta para mim: e você, gostou?

Uau. Digo apenas: gostei. Ela fotografa minha alma por alguns instantes, olhos abertos bem pequeninos, menores do que as pérolas que ela traz em três voltas no pescoço e nos brincos. Está visivelmente orgulhosa do irmão, mas é de poucas palavras. Volta-se para o lado, então, para cumprimentar uma senhora idosa, com ternura. A essa altura, o grande público foi embora e ficaram apenas os mais íntimos.

Ao lado de Dadainha está Juliana, 27, neta que também mora em Vitória e que está visivelmente emocionada, portando um nariz vermelho e olhos marcados de choro. Pergunto porque ela ficou assim, e ela responde que nunca tinha visto João tocar em show. "Só em casa, nunca em um teatro", ela diz, com jeitinho simples.

Mesmo de luto pelo marido falecido em dezembro, a irmã Vivinha, por sua vez, estava tão feliz e orgulhosa do irmão que fez até brincadeira. Primeiro, se fez de fria e disse: "gostei mais do show do Rio. Não sei dizer por quê. Foi mais... ", terminando a frase com a feição do rosto - os lábios em muxoxo, olhando para cima, como se dissesse "grandioso". Eu pergunto, apressada: "empolgante?". Ela assente. Mas depois, ri e desfaz: "é brincadeira, viu. Eu gostei desse, sim". E sorri mais.

As duas irmãs se entreolham, felizes. Abrem-se as portas para o camarim. Já são vinte para uma da manhã. A noite de confraternização estava apenas começando para elas.

Obs.: Repórter assistiu ao show a convite da produção.

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